terça-feira, 4 de agosto de 2015

Reinaldo Ferreira - Menina dos olhos tristes


Reinaldo Ferreira

Menina dos olhos tristes - Reinaldo Ferreira



Menina dos olhos tristes

O que tanto a faz chorar?

- O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.


Senhora de olhos cansados,

Por que a fatiga o tear?

- O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.


Vamos senhor pensativo,

Olhe o cachimbo a apagar.

- O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.


Anda bem triste um amigo,

Uma carta o fez chorar.

- O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.


A Lua, que é viajante,

É que nos pode informar.

- O soldadinho já volta

Do outro lado do mar.


O soldadinho já volta

Está mesmo a chegar.


Vem numa caixa de pinho.

Desta vez o soldadinho

Nunca mais se faz ao mar.





segunda-feira, 3 de agosto de 2015

José Gomes Ferreira - Aquela nuvem - Vivam, apenas - A poesia não é um dialecto - Vai-te poesia


José Gomes Ferreira


Aquela nuvem - José Gomes Ferreira


Aquela nuvem

Parece um cavalo...

Ah! Se eu pudesse montá-lo!

Aquela?

Mas já não é um cavalo,

É uma barca à vela.

Não faz mal.

Queria embarcar nela.

Aquela?

Mas já não é um navio,

É uma torre amarela

A vogar no frio

Onde encerraram uma donzela.

Não faz mal.

Quero ter asas

Para a espreitar da janela.

Vá, lancem-me no mar

Donde voam as nuvens

Para ir numa delas

Tomar mil formas

Com sabor a sal

- Labirinto de sombras e de cisnes

No céu de água - sol - vento - luz concreto e irreal...


Vivam, apenas - José Gomes Ferreira


Vivam, apenas.

Sejam bons como o sol.

Livres como o vento

Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos

Que dão flores e frutos

Sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos

A transformar os espinhos

Em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.

Não sofram por causa dos cadáveres

Que só são belos

Quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.

A morte é para os mortos.


A poesia não é um dialecto - José Gomes Ferreira


A poesia não é um dialecto

para bocas irreais.

Nem o suor concreto

das palavras banais.

É talvez o sussurro daquele insecto

de que ninguém sabe os sinais.

Silêncio insurrecto.


Vai-te poesia - José Gomes Ferreira


Vai-te poesia!

Deixa-me ver friamente

a realidade nua

sem ninfas de iludir

ou violinos de lua.

Vai-te, Poesia!

Não transformes o mundo

descarnado e terrível

num céu de esquecer

com mendigos de nuvens

famintos de estrelas

e feridas a cheirarem a cravos

- enquanto os outros, os de carne verdadeira,

uivam em vão

a sua fome de cadeias

e de pão.

Vai-te, Poesia!

Deixa-me ver a vida

exacta e intolerável

neste planeta feito de carne humana a chorar

onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos

com bandeiras de lume nos olhos,

para fabricar sonhos

carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia! 



 

domingo, 2 de agosto de 2015

Carlos Drummond de Andrade - No Meio do Caminho - Procura da poesia - Para sempre


Carlos Drummond de Andrade


Para sempre - Carlos Drummond de Andrade


Por que Deus permite

Que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

É tempo sem hora,

Luz que não apaga

Quando sopra o vento

E chuva desaba,

Veludo escondido

Na pele enrugada,

Água pura, ar puro,

Puro pensamento.


Morrer acontece

Com o que é breve e passa

Sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

É eternidade!

Por que Deus se lembra

- mistério profundo -

De tirá-la um dia?


Fosse eu Rei do mundo,

Baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

Mãe ficará sempre

Junto do seu filho

E ele, velho embora,

Será pequenino

Feito grão de milho.


Procura da poesia - Carlos Drummond de Andrade


Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

Há calma e frescura na superfície intacta.


Hei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.


Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

Como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.


Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma tem mil faces secretas sobre a face neutra e te pergunta,

sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que lhe deres:

Trouxeste a chave?


Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram da noite as palavras.

Ainda húmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


No Meio do Caminho - Carlos Drummond de Andrade


No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.


Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra. 


 

sábado, 1 de agosto de 2015

José Carlos Ary dos Santos - Os putos - Auto-Retrato - Desfolhada - A cidade é um chão de palavras pisadas -Epígrafe - Ecce Homo - Meu amor, meu amor - Poesia - Orgasmo


José Carlos Ary dos Santos


Os putos - José Carlos Ary dos Santos


Uma bola de pano, num charco

Um sorriso traquina, um chuto

Na ladeira a correr, um arco

O céu no olhar, dum puto.


Uma fisga que atira a esperança

Um pardal de calções, astuto

E a força de ser criança

Contra a força dum chui, que é bruto.


Parecem bandos de pardais à solta

Os putos, os putos

São como índios, capitães da malta

Os putos, os putos


Mas quando a tarde cai

Vai-se a revolta

Sentam-se ao colo do pai

É a ternura que volta

E ouvem-no a falar do homem novo

São os putos deste povo

A aprenderem a ser homens.


As caricas brilhando na mão

A vontade que salta ao eixo

Um puto que diz que não

Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola

Um pião na algibeira sem cor

Um puto que pede esmola

Porque a fome lhe abafa a dor.


Auto-Retrato - José Carlos Ary dos Santos


Poeta é certo mas de cetineta

fulgurante de mais para alguns olhos

bom artesão na arte da proveta

narciso de lombardas e repolhos.


Cozido à portuguesa mais as carnes

suculentas da auto-importância

com toicinho e talento ambas partes

do meu caldo entornado na infância.


Nos olhos uma folha de hortelã

que é verde como a esperança que amanhã

amanheça de vez a desventura.


Poeta de combate disparate

palavrão de machão no escaparate

porém morrendo aos poucos de ternura.


Desfolhada - José Carlos Ary dos Santos


Corpo de linho

lábios de mosto

meu corpo lindo

meu fogo posto.


Eira de milho

luar de Agosto

quem faz um filho

fá-lo por gosto.


É milho - rei

milho vermelho

cravo de carne

bago de amor

filho de um rei

que sendo velho

volta a nascer

quando há calor.


Minha palavra dita à luz do sol nascente

meu madrigal de madrugada

amor amor amor amor amor presente

em cada espiga desfolhada.


Minha raiz de pinho verde

meu céu azul tocando a serra

oh minha água e minha sede

oh mar ao sul da minha terra.


É trigo loiro

é além tejo

o meu país

neste momento

o sol o queima

o vento o beija

seara louca em movimento.


Minha palavra dita à luz do sol nascente

meu madrigal de madrugada

amor amor amor amor amor presente

em cada espiga desfolhada.


Olhos de amêndoa

cisterna escura

onde se alpendra

a desventura.


Moira escondida

moira encantada

lenda perdida

lenda encontrada.


Oh minha terra

minha aventura

casca de noz

desamparada.


Oh minha terra

minha lonjura

por mim perdida

por mim achada.


A cidade é um chão de palavras pisadas - José Carlos Ary dos Santos


A cidade é um chão de palavras pisadas

a palavra criança a palavra segredo.

A cidade é um céu de palavras paradas

a palavra distância e a palavra medo.


A cidade é um saco um pulmão que respira

pela palavra água pela palavra brisa

A cidade é um poro um corpo que transpira

pela palavra sangue pela palavra ira.


A cidade tem praças de palavras abertas

como estátuas mandadas apear.

A cidade tem ruas de palavras desertas

como jardins mandados arrancar.


A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.

A palavra silêncio é uma rosa chá.

Não há céu de palavras que a cidade não cubra

não há rua de sons que a palavra não corra

à procura da sombra de uma luz que não há.


Epígrafe - José Carlos Ary dos Santos


De palavras não sei. Apenas tento

desvendar o seu lento movimento

quando passam ao longo do que invento

como pre-feitos blocos de cimento.


De palavras não sei. Apenas quero

retomar-lhes o peso a consistência

e com elas erguer a fogo e ferro

um palácio de força e resistência.


De palavras não sei. Por isso canto

em cada uma apenas outro tanto

do que sinto por dentro quando as digo.


Palavra que me lavra. Alfaia escrava.

De mim próprio matéria bruta e brava

--- expressão da multidão que está comigo.


Ecce Homo - José Carlos Ary dos Santos


Desbaratamos deuses, procurando

Um que nos satisfaça ou justifique.

Desbaratamos esperança, imaginando

Uma causa maior que nos explique.


Pensando nos secamos e perdemos

Esta força selvagem e secreta,

Esta semente agreste que trazemos

E gera heróis e homens e poetas.


Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo

Malhando-nos a carne, até que em brasa

Nossos sexos furiosos se confundam,


Nossos corpos pensantes se entrelacem

E sangue, raiva, desespero ou asa,

Os filhos que tivermos forem nossos.


Meu amor, meu amor - José Carlos Ary dos Santos


Meu amor meu amor

meu corpo em movimento

minha voz à procura

do seu próprio lamento.


Meu limão de amargura meu punhal a escrever

nós parámos o tempo não sabemos morrer

e nascemos nascemos

do nosso entristecer.


Meu amor meu amor

meu nó e sofrimento

minha mó de ternura

minha nau de tormento


este mar não tem cura este céu não tem ar

nós parámos o vento não sabemos nadar

e morremos morremos

devagar devagar.


Poesia - Orgasmo - José Carlos Ary dos Santos


De silabas de letras de fonemas

se faz a escrita. Não se faz um verso.

Tem de correr no corpo dos poemas

o sangue das artérias do universo.


Cada palavra há-de ser um grito.

Um murmúrio um gemido uma erecção

que transporte do humano ao infinito

a dor o fogo a flor a vibração.


A poesia é de mel ou de cicuta?

Quando um poeta se interroga e escuta

ouve ternura luta espanto ou espasmo?


Ouve como quiser seja o que for

fazer poemas é escrever amor

a poesia o que tem de ser é orgasmo.


Hilda Hilst- Do Desejo- Colada à tua boca a minha desordem - Que canto há de cantar o que perdura? - Que Este Amor Não Me Cegue Nem Me Siga - Trovas De Muito Amor Para Um Amado Senhor - Dez Chamamentos ao Amigo - Árias Pequenas. Para Bandolim


Do Desejo - Hilda Hilst


E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

(Do Desejo - 1992)


Colada à tua boca a minha desordem - Hilda Hilst



Colada à tua boca a minha desordem.

O meu vasto querer.

O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua

Construtor de ilusões examino-te sôfrega

Como se fosses morrer colado à minha boca.

Como se fosse nascer

E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

( Do Desejo - 1992)


Que canto há de cantar o que perdura? - Hilda Hilst


Que canto há de cantar o que perdura?

A sombra, o sonho, o labirinto, o caos

A vertigem de ser, a asa, o grito.

Que mitos, meu amor, entre os lençóis:

O que tu pensas gozo é tão finito

E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas

E ao mesmo tempo te dizer adeus

Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?

O toque sem tocar, o olhar sem ver

A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.

Como te amar, sem nunca merecer?

(Do Desejo - Campinas, SP: Pontes, 1992.)


Que Este Amor Não Me Cegue Nem Me Siga - Hilda Hilst


Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.

Que me exclua de estar sendo perseguida

E do tormento

De só por ele me saber estar sendo.

Que o olhar não se perca nas tulipas

Pois formas tão perfeitas de beleza

Vêm do fulgor das trevas.

E o meu Senhor habita o rutilante escuro

De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente

E farta de fadigas. E de fragilidades tantas

Eu me faça pequena. E diminuta e tenra

Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.


Trovas De Muito Amor Para Um Amado Senhor - Hilda Hilst


Nave

Ave

Moinho

E tudo mais serei

Para que seja leve

Meu passo

Em vosso caminho.

Dizeis que tenho vaidades.

E que no vosso entender

Mulheres de pouca idade

Que não se queiram perder

É preciso que não tenham

Tantas e tais veleidades.

Senhor, se a mim me acrescento

Flores e renda, cetins,

Se solto o cabelo ao vento

É bem por vós, não por mim.

Tenho dois olhos contentes

E a boca fresca e rosada.

E a vaidade só consente

Vaidades, se desejada.

E além de vós

Não desejo nada.

(Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; [Brasília]: INL, 1980.)


Dez Chamamentos ao Amigo - Hilda Hilst


Se te pareço nocturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.

(Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; [Brasília]: INL, 1980.)


Árias Pequenas. Para Bandolim - Hilda Hilst


Antes que o mundo acabe, Túlio,

Deita-te e prova

Esse milagre do gosto

Que se fez na minha boca

Enquanto o mundo grita

Belicoso. E ao meu lado

Te fazes árabe, me faço israelita

E nos cobrimos de beijos

E de flores

Antes que o mundo se acabe

Antes que acabe em nós

Nosso desejo.


(Júbilo Memória Noviciado da Paixão(1974) -

Árias Pequenas. Para Bandolim - XI) 



 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Ruy Belo - Água - E Tudo era possível- Transcrição de uns olhos pretos e de uns sapatos de fivela - meus versos lavro-os ao rubro - A mão no arado - Breve Sonata em Sol [UM] (Menor, Claro)- Mas que sei eu


Água

Ruy Belo


Água, feita de volubilidade 

mãe das nuvens e do barro.

posso senti-la discreta

transparente inevitável.



Prisioneira gelada

dos refrigeradores,

vago itinerário dos peixes,

húmido túmulo dos detritos

que os homens repudiaram.



feita de angústia,

saíste dos olhos

para a estrada áspera

das rugas.



Ergues tua bandeira vermelha

no peito dos apunhalados.



Água,

hei-de beber-te comovido

na inodora volúpia

da tua acomodada transparência.



Embebes de esquecimento

os suicidas.



Tuas mãos rudes

agarram os continentes,

dissolvem os náufragos,

projectam no céu

os velames e as quilhas.



Bojo surdo e verde

cofre de algas e flibusteiros,

bactérias e diamantes.



Quero-te agora

inerte de presságios,

mera adolescente

nascida na terra,

filha perdida do azul



E Tudo era possível

Ruy Belo


Na minha juventude antes de ter saído

da casa de meus pais disposto a viajar

eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido

 
Chegava o mês de Maio e era tudo florido

o rolo das manhãs punha-se a circular

e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido

 
E tudo se passava numa outra vida

e havia para as coisas sempre uma saída

Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

 
Só sei que tinha o poder duma criança

entre as coisas e mim havia vizinhança

e tudo era possível era só querer



Transcrição de uns olhos pretos e de uns sapatos de fivela

Ruy Belo


Crianças com toda a tristeza garantida pela vida

por ela consentida e abrangida e afinal

mais presente nos olhos do que o próprio olhar

tristeza tão pesada e concentrada como a pedra

crianças que algum mundo que não este nunca

tão poderosamente poderá matar

numa vida visivelmente ainda surpreendida

por ser coisa pequena embora coisa oposta ao nada

na forma diluída por exemplo de um reflexo do olhar

crianças criaturas que na superfície da infância

sobrenadam submersas crianças mais palavras que conversa

crianças tão confusas que confundem

em seu desprevenido abismo de surpresa

traduzido talvez apenas numas simples duas mãos caídas

quem nesta convenção de braços e relógios

já apenas conserva ainda acesa

a cru capacidade de às crianças consentir

um momento ingressar tão agressivas muito a seu pesar

na vida negação da vida apenas viva no adulto olhar

crianças que conturbam momentaneamente

quem é a morte toda condição de vida

quem é hábito e calma e só no olhar inquietação

crianças referência da infância e inocência

contradição unicamente consenti da

a quem sabe que só a morte é condição da vida

crianças que ao chegar já trazem olhos de partida

crianças causa de perturbação e readaptação

crianças coisas verdadeiramente incómodas até no

à-vontade

com que sem bem querer insubordinam a cidade

crianças causadoras de uma certa dor sentida ou pensada

em quem deixou a vida em divididos dias

crianças coisas tão profundas tão perdidas

crianças que traí muito bons dias


meus versos lavro-os ao rubro

Ruy Belo


meus versos lavro-os ao rubro

nesta página de terra

que abro em lábio. Descubro-

-lhe a voz que no fundo encerra.

 
Os versos que faço sou-os

A relha rasga-me a vida

e amarra os sonhos de voos

que eu tinha à terra ferida.

 
Poema que mais que escrevo

devo-to em vida. No húmus

e regos simples eu levo

os meus desvairados rumos.

 
Mas mais que poema meu

( que eu nunca soube palavra)

isto que dispo sou eu

Poeta não escrevas lavra.


A mão no arado

Ruy Belo


Feliz aquele que administra sabiamente

a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias

 Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

 
Oh! como é triste envelhecer à porta

entretecer nas mãos um coração tardio

Oh como é triste arriscar em humanos regressos

o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão

ao longo do mar transbordante de nós

no demorado adeus da nossa condição

 
É triste no jardim a solidão do sol

vê-lo desde o rumor e as casas da cidade

até uma vaga promessa de rio

e a pequenina vida que se concede às unhas

Mais triste é termos de nascer e morrer

e haver árvores ao fim da rua

 
É triste ir pela vida como quem

regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

É triste no Outono concluir

que era o verão a única estação

Passou o solitário vento e não o conhecemos

e não soubemos ir até ao fundo da verdura

como rios que sabem onde encontrar o mar

e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver

através de palavras de uma água para sempre dita

Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

 
Triste é comprar castanhas depois da tourada

entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro

e ter como futuro o asfalto e muita gente

e atrás a vida sem nenhuma infância

revendo tudo isto algum tempo depois

A tarde morre pelos dias fora

É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.


Breve Sonata em Sol [UM] (Menor, Claro)

Ruy Belo


A solidão da árvore sozinha

no campo do verão alentejano

é só mais solitária do que a minha

e teima ali na terra todo o ano

quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia

e o calor é tão triste como o é somente a alegria

Eu passo e passo muito mais que o próprio dia


Mas que sei eu

Ruy Belo


Mas que sei eu das folhas no outono

ao vento vorazmente arremessadas

quando eu passo pelas madrugadas

tal como passaria qualquer dono?

 
Eu sei que é vão o vento e lento o sono

e acabam coisas mal principiadas

no ínvio precipício das geadas

que pressinto no meu fundo abandono

 
Nenhum súbito súbdito lamenta

a dor de assim passar que me atormenta

e me ergue no ar como outra folha

 
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?

As coisas vêm vão e são tão vãs

como este olhar que ignoro que me olha 




sábado, 25 de julho de 2015

Alda Lara - Rumo - Prelúdio


Rumo

Alda Lara

É tempo, companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz 
Da Terra...

Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!

Vamos, companheiro...
É tempo!

Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
e o meu suor se junte ao teu
suor, quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!

Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...
É tempo, companheiro!
Caminhemos...


Prelúdio
 
Alda Lara

(para Lídia, minha velha ama negra)


Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra desce com ela.


Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos
nas suas mãos apertadas...


Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.


Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
tem voz de noite descendo
de mansinho pela estrada.


... Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...


Mãe-Negra não sabe nada.
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo,
Mãe-Negra...


É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão de voltar!...


Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaços,
bem quieta, bem calada...


É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo
de mansinho pela estrada...


In Resistência Africana-Antologia Poética, Diabril Editora, 1975 - Lisboa, Portugal