sábado, 1 de agosto de 2015

Hilda Hilst- Do Desejo- Colada à tua boca a minha desordem - Que canto há de cantar o que perdura? - Que Este Amor Não Me Cegue Nem Me Siga - Trovas De Muito Amor Para Um Amado Senhor - Dez Chamamentos ao Amigo - Árias Pequenas. Para Bandolim


Do Desejo - Hilda Hilst


E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

(Do Desejo - 1992)


Colada à tua boca a minha desordem - Hilda Hilst



Colada à tua boca a minha desordem.

O meu vasto querer.

O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua

Construtor de ilusões examino-te sôfrega

Como se fosses morrer colado à minha boca.

Como se fosse nascer

E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

( Do Desejo - 1992)


Que canto há de cantar o que perdura? - Hilda Hilst


Que canto há de cantar o que perdura?

A sombra, o sonho, o labirinto, o caos

A vertigem de ser, a asa, o grito.

Que mitos, meu amor, entre os lençóis:

O que tu pensas gozo é tão finito

E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas

E ao mesmo tempo te dizer adeus

Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?

O toque sem tocar, o olhar sem ver

A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.

Como te amar, sem nunca merecer?

(Do Desejo - Campinas, SP: Pontes, 1992.)


Que Este Amor Não Me Cegue Nem Me Siga - Hilda Hilst


Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.

Que me exclua de estar sendo perseguida

E do tormento

De só por ele me saber estar sendo.

Que o olhar não se perca nas tulipas

Pois formas tão perfeitas de beleza

Vêm do fulgor das trevas.

E o meu Senhor habita o rutilante escuro

De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente

E farta de fadigas. E de fragilidades tantas

Eu me faça pequena. E diminuta e tenra

Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.


Trovas De Muito Amor Para Um Amado Senhor - Hilda Hilst


Nave

Ave

Moinho

E tudo mais serei

Para que seja leve

Meu passo

Em vosso caminho.

Dizeis que tenho vaidades.

E que no vosso entender

Mulheres de pouca idade

Que não se queiram perder

É preciso que não tenham

Tantas e tais veleidades.

Senhor, se a mim me acrescento

Flores e renda, cetins,

Se solto o cabelo ao vento

É bem por vós, não por mim.

Tenho dois olhos contentes

E a boca fresca e rosada.

E a vaidade só consente

Vaidades, se desejada.

E além de vós

Não desejo nada.

(Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; [Brasília]: INL, 1980.)


Dez Chamamentos ao Amigo - Hilda Hilst


Se te pareço nocturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.

(Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; [Brasília]: INL, 1980.)


Árias Pequenas. Para Bandolim - Hilda Hilst


Antes que o mundo acabe, Túlio,

Deita-te e prova

Esse milagre do gosto

Que se fez na minha boca

Enquanto o mundo grita

Belicoso. E ao meu lado

Te fazes árabe, me faço israelita

E nos cobrimos de beijos

E de flores

Antes que o mundo se acabe

Antes que acabe em nós

Nosso desejo.


(Júbilo Memória Noviciado da Paixão(1974) -

Árias Pequenas. Para Bandolim - XI) 



 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Ruy Belo - Água - E Tudo era possível- Transcrição de uns olhos pretos e de uns sapatos de fivela - meus versos lavro-os ao rubro - A mão no arado - Breve Sonata em Sol [UM] (Menor, Claro)- Mas que sei eu


Água

Ruy Belo


Água, feita de volubilidade 

mãe das nuvens e do barro.

posso senti-la discreta

transparente inevitável.



Prisioneira gelada

dos refrigeradores,

vago itinerário dos peixes,

húmido túmulo dos detritos

que os homens repudiaram.



feita de angústia,

saíste dos olhos

para a estrada áspera

das rugas.



Ergues tua bandeira vermelha

no peito dos apunhalados.



Água,

hei-de beber-te comovido

na inodora volúpia

da tua acomodada transparência.



Embebes de esquecimento

os suicidas.



Tuas mãos rudes

agarram os continentes,

dissolvem os náufragos,

projectam no céu

os velames e as quilhas.



Bojo surdo e verde

cofre de algas e flibusteiros,

bactérias e diamantes.



Quero-te agora

inerte de presságios,

mera adolescente

nascida na terra,

filha perdida do azul



E Tudo era possível

Ruy Belo


Na minha juventude antes de ter saído

da casa de meus pais disposto a viajar

eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido

 
Chegava o mês de Maio e era tudo florido

o rolo das manhãs punha-se a circular

e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido

 
E tudo se passava numa outra vida

e havia para as coisas sempre uma saída

Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

 
Só sei que tinha o poder duma criança

entre as coisas e mim havia vizinhança

e tudo era possível era só querer



Transcrição de uns olhos pretos e de uns sapatos de fivela

Ruy Belo


Crianças com toda a tristeza garantida pela vida

por ela consentida e abrangida e afinal

mais presente nos olhos do que o próprio olhar

tristeza tão pesada e concentrada como a pedra

crianças que algum mundo que não este nunca

tão poderosamente poderá matar

numa vida visivelmente ainda surpreendida

por ser coisa pequena embora coisa oposta ao nada

na forma diluída por exemplo de um reflexo do olhar

crianças criaturas que na superfície da infância

sobrenadam submersas crianças mais palavras que conversa

crianças tão confusas que confundem

em seu desprevenido abismo de surpresa

traduzido talvez apenas numas simples duas mãos caídas

quem nesta convenção de braços e relógios

já apenas conserva ainda acesa

a cru capacidade de às crianças consentir

um momento ingressar tão agressivas muito a seu pesar

na vida negação da vida apenas viva no adulto olhar

crianças que conturbam momentaneamente

quem é a morte toda condição de vida

quem é hábito e calma e só no olhar inquietação

crianças referência da infância e inocência

contradição unicamente consenti da

a quem sabe que só a morte é condição da vida

crianças que ao chegar já trazem olhos de partida

crianças causa de perturbação e readaptação

crianças coisas verdadeiramente incómodas até no

à-vontade

com que sem bem querer insubordinam a cidade

crianças causadoras de uma certa dor sentida ou pensada

em quem deixou a vida em divididos dias

crianças coisas tão profundas tão perdidas

crianças que traí muito bons dias


meus versos lavro-os ao rubro

Ruy Belo


meus versos lavro-os ao rubro

nesta página de terra

que abro em lábio. Descubro-

-lhe a voz que no fundo encerra.

 
Os versos que faço sou-os

A relha rasga-me a vida

e amarra os sonhos de voos

que eu tinha à terra ferida.

 
Poema que mais que escrevo

devo-to em vida. No húmus

e regos simples eu levo

os meus desvairados rumos.

 
Mas mais que poema meu

( que eu nunca soube palavra)

isto que dispo sou eu

Poeta não escrevas lavra.


A mão no arado

Ruy Belo


Feliz aquele que administra sabiamente

a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias

 Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

 
Oh! como é triste envelhecer à porta

entretecer nas mãos um coração tardio

Oh como é triste arriscar em humanos regressos

o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão

ao longo do mar transbordante de nós

no demorado adeus da nossa condição

 
É triste no jardim a solidão do sol

vê-lo desde o rumor e as casas da cidade

até uma vaga promessa de rio

e a pequenina vida que se concede às unhas

Mais triste é termos de nascer e morrer

e haver árvores ao fim da rua

 
É triste ir pela vida como quem

regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

É triste no Outono concluir

que era o verão a única estação

Passou o solitário vento e não o conhecemos

e não soubemos ir até ao fundo da verdura

como rios que sabem onde encontrar o mar

e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver

através de palavras de uma água para sempre dita

Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

 
Triste é comprar castanhas depois da tourada

entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro

e ter como futuro o asfalto e muita gente

e atrás a vida sem nenhuma infância

revendo tudo isto algum tempo depois

A tarde morre pelos dias fora

É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.


Breve Sonata em Sol [UM] (Menor, Claro)

Ruy Belo


A solidão da árvore sozinha

no campo do verão alentejano

é só mais solitária do que a minha

e teima ali na terra todo o ano

quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia

e o calor é tão triste como o é somente a alegria

Eu passo e passo muito mais que o próprio dia


Mas que sei eu

Ruy Belo


Mas que sei eu das folhas no outono

ao vento vorazmente arremessadas

quando eu passo pelas madrugadas

tal como passaria qualquer dono?

 
Eu sei que é vão o vento e lento o sono

e acabam coisas mal principiadas

no ínvio precipício das geadas

que pressinto no meu fundo abandono

 
Nenhum súbito súbdito lamenta

a dor de assim passar que me atormenta

e me ergue no ar como outra folha

 
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?

As coisas vêm vão e são tão vãs

como este olhar que ignoro que me olha 




sábado, 25 de julho de 2015

Alda Lara - Rumo - Prelúdio


Rumo

Alda Lara

É tempo, companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz 
Da Terra...

Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!

Vamos, companheiro...
É tempo!

Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
e o meu suor se junte ao teu
suor, quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!

Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...
É tempo, companheiro!
Caminhemos...


Prelúdio
 
Alda Lara

(para Lídia, minha velha ama negra)


Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra desce com ela.


Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos
nas suas mãos apertadas...


Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.


Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
tem voz de noite descendo
de mansinho pela estrada.


... Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...


Mãe-Negra não sabe nada.
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo,
Mãe-Negra...


É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão de voltar!...


Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaços,
bem quieta, bem calada...


É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo
de mansinho pela estrada...


In Resistência Africana-Antologia Poética, Diabril Editora, 1975 - Lisboa, Portugal

 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

André Carneiro- Ciência quântica da formiga- Insectos Alienígenas- Meu micro- Ondas Quânticas- Confesso


Ciência quântica da formiga

André Carneiro


Combino a relatividade geral

com o princípio da incerteza.

Troco buracos negros por brancos,

risco as singularidades,

contenho o universo

sem limites.

O infinito coloco

na curvatura

do espaço-tempo.

No lençol do mundo

costuro filamentos,

nas margens

ponho glúons e quarks,

faço a maquete

tridimensional

teórica.



Modelo em código,

não serve para o quarto,

nem ajuda o desespero

do encontro falho.

Sinto sede, fome e orgasmo.

Também corto a folha, coloco nas costas,

sigo túneis curvos,

deposito o alimento

para os fungos.



Volto ao sol da tarde,

gigantes e poderosos

esmagam a cada passo

meus irmãos carentes,

treino centúrias,

cresço além dos ratos e baratas,

reconstruo a biblioteca

de Alexandria,

invento a alma invisível

na carne transitória.


Insectos Alienígenas

André Carneiro


Não respondo imediatamente

cartas que recebo.

Olho-as de lado,

descubro outras tarefas,

o futuro romperia

se eu eliminasse os compromissos.



Nas letras soldo minhas veias,

amo os objectos,

barcos que me levam pelo dias.



Alheios defeitos doem,

porque são espelhos.

A sina me levantou em duas patas,

a coluna mal sustenta o orgulho

da cabeça erguida.



Tenho de lançar raízes,

inventar o sonho,

amar a fêmea, o filho, a arte.

Acabo antes de viajar no cosmos,

visitar planetas,

comparar insectos alienígenas,

talvez melhores.


André Carneiro

Meu micro


O micro pergunta

ansioso,

se quero apagar a memória.

Gravo SIM nas teclas trémulas.



Algum atirador emérito

nomeou Winchester

esta redonda massa cinzenta

que me alerta

falhas ortográficas

e acerta a estética

das palavras.



Nascido em priscas eras,

agora sou traço de luz verde

(ou vermelha)

nas máquinas bancárias,

dono magnético dos disquetes,

minha mão direita

segura o rato,

leva a flecha

através das janelas.



O micro ronrona

circunvoluções misteriosas,

absorve versos

que voltam na tela.



Um especialista de sistemas,

analiticamente freudiano,

soma lapsos, silêncios e

brancos,

para o diagnóstico cibernético

do meu trajecto humano.


Ondas Quânticas

André Carneiro


O universo só existe

quando observo.

Lento voo da asa,

teu andar de praia,

a nuvem gorda de água

desaparecem

se eu falho.

Penso, alto atravessa

e molda um fato.

O espelho me inventa,

a ruga não sou eu quem traço.



Comprimo o corpo de átomos

entro nos túneis de mundo

e passo.

Você sorri,

não acredita no insecto dourado

quando eu pouso na face.



Energias quânticas

modelam seios e braços.

Retrato não reconheço,

linhas do rosto,

corpo e vontade desmancho,

teço de novo, sou co-autor

sem nenhum quadro.



Explico o momento,

a nave tomba,

gotas translúcidas

giram prótons e neutrons

neste céu de Maio.



Sorriso de cinema vale

vinte e quatro passos

por segundo, o planeta gira

completamente tonto.

Dentro deste verso

sua boca muda,

deslizo de skate

no suave das nádegas,

aqueço veias

no ouro caminho do ventre.



A pequena morte pulveriza

meu corpo imortal,

o beijo solda lábios,

só a memória falece.

 
 Confesso

André Carneiro


Tenho oito teleclones,

dois em meu quarto,

na cozinha, no banheiro...

Minha secretária biónica

inventa recados

quando a solidão permanece em silêncio.



Não registro patentes

meu captador holográfico

copia átomos,

transmigro almas

escondidas

na massa cinzenta.



Projecto o aparelho,

réplica do

criador de mulheres

com ossos no peito.



Parafísico,

uso almofariz

e o silício do chip.

Pálpebras fechadas,

invento carne nas palmas,

calor do seio nos lábios

e o mundo desaba

em minha cabeça.


André Carneiro 




Corsino Fortes - Pecado Original- Girassol- De boca a barlavento -.E


Corsino Fortes

Pecado Original

Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...

Corsino Fortes


Girassol
 
Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!

Corsino Fortes


De boca a barlavento
 
I


Esta
a minha mão de milho & marulho
Este
o sól a gema E não
o esboroar do osso na bigorna
E embora
O deserto abocanhe a minha carne de homem
E caranguejos devorem
esta mão de semear
Há sempre
Pela artéria do meu sangue que g
o
t
e
j
a
De comarca em comarca
A árvore E o arbusto
Que arrastam
As vogais e os ditongos
para dentro das violas


II


Poeta! todo o poema:
geometria de sangue & fonema
Escuto Escuta

Um pilão fala
árvores de fruto
ao meio do dia
E tambores
erguem
na colina
Um coração de terra batida
E lon longe
Do marulho á viola fria
Reconheço o bemol
Da mão doméstica
Que solfeja

Mar & monção mar & matrimónio
Pão pedra palmo de terra
Pão & património

Corsino Fortes


E

Os homens que nasceram da estrela da manhã
Assim foram
Árvore & Tambor pela alvorada
Plantar no lábio da tua porta

África
mais uma espiga mais um livro mais uma roda

Que
Do coração da revolta
A Pátria que nasce
Toda a semente é fraternidade que sangra

*

A espingarda que atinge o topo da colina
De cavilha & coronha

partida partidas
E dobra a espinha

como enxada entre duas ilhas
E fuma vigilante

o seu cachimbo de paz
Não é um mutilado de guerra
É raiz & esfera no seu tempo & modo
De pouca semente
E muita luta.

Corsino Fortes


 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Alexandre O'Neill - Divertimento com sinais ortográficos - Há palavras que nos beijam -


Alexandre O'Neill



Alexandre O'Neill - Divertimento com sinais ortográficos



...
Em aberto, em suspenso
Fica tudo o que digo.
E também o que faço é reticente...
:
Introduzimos, por vezes,
Frases nada agradáveis...
.
Depois de mim maiúscula
Ou espaço em branco
Contra o qual defendo os textos
,
Quando estou mal disposta
(E estou-o muitas vezes...)
Mudo o sentido às frases,
Complico tudo...
!
Não abuses de mim!
?
Serás capaz de responder a tudo o que pergunto?
( )
Quem nos dera bem juntos
Sem grandes apartes metidos entre nós!
^
Dou guarida e afecto
A vogal que procure um tecto.

Alexandre O'Neill, Abandono Vigiado



Alexandre O'Neill - Há palavras que nos beijam



Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca



Alexandre O'Neill - Minuciosa formiga



Minuciosa formiga
Não tem que se lhe diga:
Leva a sua palhinha
Asinha, asinha.

Assim devera ser eu
E não esta cigarra
Que se põe a cantar
E me deita a perder.

Assim devera eu ser:
De patinhas no chão,
Formiguinha ao trabalho
E ao tostão.
Assim devera eu ser
Se não fora não querer.

Alexandre O'Neill, Feira Cabisbaixa 




Aguinaldo Fonseca - Mãe negra


Aguinaldo Fonseca

Mãe negra - Aguinaldo Fonseca

 

A mãe negra embala o filho.

Canta a remota canção

Que seus avós já cantavam

Em noites sem madrugada.

Canta, canta para o céu

Tão estrelado e festivo.

É para o céu que ela canta,

Que o céu

Às vezes também é negro.

No céu

Tão estrelado e festivo

Não há branco, não há preto,

Não há vermelho e amarelo.

—Todos são anjos e santos

Guardados por mãos divinas.

A mãe negra não tem casa

Nem carinhos de ninguém...

A mãe negra é triste, triste,

E tem um filho nos braços...

Mas olha o céu estrelado

E de repente sorri.

Parece-lhe que cada estrela

É uma mão acenando

Com simpatia e saudade...