sexta-feira, 24 de julho de 2015

André Carneiro- Ciência quântica da formiga- Insectos Alienígenas- Meu micro- Ondas Quânticas- Confesso


Ciência quântica da formiga

André Carneiro


Combino a relatividade geral

com o princípio da incerteza.

Troco buracos negros por brancos,

risco as singularidades,

contenho o universo

sem limites.

O infinito coloco

na curvatura

do espaço-tempo.

No lençol do mundo

costuro filamentos,

nas margens

ponho glúons e quarks,

faço a maquete

tridimensional

teórica.



Modelo em código,

não serve para o quarto,

nem ajuda o desespero

do encontro falho.

Sinto sede, fome e orgasmo.

Também corto a folha, coloco nas costas,

sigo túneis curvos,

deposito o alimento

para os fungos.



Volto ao sol da tarde,

gigantes e poderosos

esmagam a cada passo

meus irmãos carentes,

treino centúrias,

cresço além dos ratos e baratas,

reconstruo a biblioteca

de Alexandria,

invento a alma invisível

na carne transitória.


Insectos Alienígenas

André Carneiro


Não respondo imediatamente

cartas que recebo.

Olho-as de lado,

descubro outras tarefas,

o futuro romperia

se eu eliminasse os compromissos.



Nas letras soldo minhas veias,

amo os objectos,

barcos que me levam pelo dias.



Alheios defeitos doem,

porque são espelhos.

A sina me levantou em duas patas,

a coluna mal sustenta o orgulho

da cabeça erguida.



Tenho de lançar raízes,

inventar o sonho,

amar a fêmea, o filho, a arte.

Acabo antes de viajar no cosmos,

visitar planetas,

comparar insectos alienígenas,

talvez melhores.


André Carneiro

Meu micro


O micro pergunta

ansioso,

se quero apagar a memória.

Gravo SIM nas teclas trémulas.



Algum atirador emérito

nomeou Winchester

esta redonda massa cinzenta

que me alerta

falhas ortográficas

e acerta a estética

das palavras.



Nascido em priscas eras,

agora sou traço de luz verde

(ou vermelha)

nas máquinas bancárias,

dono magnético dos disquetes,

minha mão direita

segura o rato,

leva a flecha

através das janelas.



O micro ronrona

circunvoluções misteriosas,

absorve versos

que voltam na tela.



Um especialista de sistemas,

analiticamente freudiano,

soma lapsos, silêncios e

brancos,

para o diagnóstico cibernético

do meu trajecto humano.


Ondas Quânticas

André Carneiro


O universo só existe

quando observo.

Lento voo da asa,

teu andar de praia,

a nuvem gorda de água

desaparecem

se eu falho.

Penso, alto atravessa

e molda um fato.

O espelho me inventa,

a ruga não sou eu quem traço.



Comprimo o corpo de átomos

entro nos túneis de mundo

e passo.

Você sorri,

não acredita no insecto dourado

quando eu pouso na face.



Energias quânticas

modelam seios e braços.

Retrato não reconheço,

linhas do rosto,

corpo e vontade desmancho,

teço de novo, sou co-autor

sem nenhum quadro.



Explico o momento,

a nave tomba,

gotas translúcidas

giram prótons e neutrons

neste céu de Maio.



Sorriso de cinema vale

vinte e quatro passos

por segundo, o planeta gira

completamente tonto.

Dentro deste verso

sua boca muda,

deslizo de skate

no suave das nádegas,

aqueço veias

no ouro caminho do ventre.



A pequena morte pulveriza

meu corpo imortal,

o beijo solda lábios,

só a memória falece.

 
 Confesso

André Carneiro


Tenho oito teleclones,

dois em meu quarto,

na cozinha, no banheiro...

Minha secretária biónica

inventa recados

quando a solidão permanece em silêncio.



Não registro patentes

meu captador holográfico

copia átomos,

transmigro almas

escondidas

na massa cinzenta.



Projecto o aparelho,

réplica do

criador de mulheres

com ossos no peito.



Parafísico,

uso almofariz

e o silício do chip.

Pálpebras fechadas,

invento carne nas palmas,

calor do seio nos lábios

e o mundo desaba

em minha cabeça.


André Carneiro 




Corsino Fortes - Pecado Original- Girassol- De boca a barlavento -.E


Corsino Fortes

Pecado Original

Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...

Corsino Fortes


Girassol
 
Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!

Corsino Fortes


De boca a barlavento
 
I


Esta
a minha mão de milho & marulho
Este
o sól a gema E não
o esboroar do osso na bigorna
E embora
O deserto abocanhe a minha carne de homem
E caranguejos devorem
esta mão de semear
Há sempre
Pela artéria do meu sangue que g
o
t
e
j
a
De comarca em comarca
A árvore E o arbusto
Que arrastam
As vogais e os ditongos
para dentro das violas


II


Poeta! todo o poema:
geometria de sangue & fonema
Escuto Escuta

Um pilão fala
árvores de fruto
ao meio do dia
E tambores
erguem
na colina
Um coração de terra batida
E lon longe
Do marulho á viola fria
Reconheço o bemol
Da mão doméstica
Que solfeja

Mar & monção mar & matrimónio
Pão pedra palmo de terra
Pão & património

Corsino Fortes


E

Os homens que nasceram da estrela da manhã
Assim foram
Árvore & Tambor pela alvorada
Plantar no lábio da tua porta

África
mais uma espiga mais um livro mais uma roda

Que
Do coração da revolta
A Pátria que nasce
Toda a semente é fraternidade que sangra

*

A espingarda que atinge o topo da colina
De cavilha & coronha

partida partidas
E dobra a espinha

como enxada entre duas ilhas
E fuma vigilante

o seu cachimbo de paz
Não é um mutilado de guerra
É raiz & esfera no seu tempo & modo
De pouca semente
E muita luta.

Corsino Fortes


 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Alexandre O'Neill - Divertimento com sinais ortográficos - Há palavras que nos beijam -


Alexandre O'Neill



Alexandre O'Neill - Divertimento com sinais ortográficos



...
Em aberto, em suspenso
Fica tudo o que digo.
E também o que faço é reticente...
:
Introduzimos, por vezes,
Frases nada agradáveis...
.
Depois de mim maiúscula
Ou espaço em branco
Contra o qual defendo os textos
,
Quando estou mal disposta
(E estou-o muitas vezes...)
Mudo o sentido às frases,
Complico tudo...
!
Não abuses de mim!
?
Serás capaz de responder a tudo o que pergunto?
( )
Quem nos dera bem juntos
Sem grandes apartes metidos entre nós!
^
Dou guarida e afecto
A vogal que procure um tecto.

Alexandre O'Neill, Abandono Vigiado



Alexandre O'Neill - Há palavras que nos beijam



Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca



Alexandre O'Neill - Minuciosa formiga



Minuciosa formiga
Não tem que se lhe diga:
Leva a sua palhinha
Asinha, asinha.

Assim devera ser eu
E não esta cigarra
Que se põe a cantar
E me deita a perder.

Assim devera eu ser:
De patinhas no chão,
Formiguinha ao trabalho
E ao tostão.
Assim devera eu ser
Se não fora não querer.

Alexandre O'Neill, Feira Cabisbaixa 




Aguinaldo Fonseca - Mãe negra


Aguinaldo Fonseca

Mãe negra - Aguinaldo Fonseca

 

A mãe negra embala o filho.

Canta a remota canção

Que seus avós já cantavam

Em noites sem madrugada.

Canta, canta para o céu

Tão estrelado e festivo.

É para o céu que ela canta,

Que o céu

Às vezes também é negro.

No céu

Tão estrelado e festivo

Não há branco, não há preto,

Não há vermelho e amarelo.

—Todos são anjos e santos

Guardados por mãos divinas.

A mãe negra não tem casa

Nem carinhos de ninguém...

A mãe negra é triste, triste,

E tem um filho nos braços...

Mas olha o céu estrelado

E de repente sorri.

Parece-lhe que cada estrela

É uma mão acenando

Com simpatia e saudade...







Agostinho Neto - Aspiração - Consciencialização


Agostinho Neto



Aspiração - Agostinho Neto

Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas

Ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar

ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

E sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado

Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

Ainda a minha vida
oferecida à Vida
ainda o meu desejo

Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer

E nas sanzalas
nas casas
no subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

O meu desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.



Consciencialização - Agostinho Neto

Medo no ar!

Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma

A historia está a ser contada
de novo

Medo no ar!

Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso África
para mim
com os olhos secos. 





Adolfo Casais Monteiro - A palavra impossível


Adolfo Casais Monteiro - A palavra impossível



Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.
Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.

Adolfo Casais Monteiro, Noite Aberta aos Quatro Ventos


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Exausto - Casamento - Adélia Prado


Exausto


Eu quero uma licença de dormir,

perdão pra descansar horas a fio,

sem ao menos sonhar

a leve palha de um pequeno sonho.


Quero o que antes da vida

foi o sono profundo das espécies,

a graça de um estado.

Semente.


Muito mais que raízes.



Adélia Prado


(in "Bagagem" São Paulo: Ed.Siciliano, 1993)



Casamento


Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.


Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.


É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como "este foi difícil"

"prateou no ar dando rabanadas"

e faz o gesto com a mão.


O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.


Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.



Adélia Prado