quinta-feira, 23 de julho de 2015

Agostinho Neto - Aspiração - Consciencialização


Agostinho Neto



Aspiração - Agostinho Neto

Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas

Ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar

ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

E sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado

Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

Ainda a minha vida
oferecida à Vida
ainda o meu desejo

Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer

E nas sanzalas
nas casas
no subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

O meu desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.



Consciencialização - Agostinho Neto

Medo no ar!

Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma

A historia está a ser contada
de novo

Medo no ar!

Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso África
para mim
com os olhos secos. 





Adolfo Casais Monteiro - A palavra impossível


Adolfo Casais Monteiro - A palavra impossível



Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.
Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.

Adolfo Casais Monteiro, Noite Aberta aos Quatro Ventos


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Exausto - Casamento - Adélia Prado


Exausto


Eu quero uma licença de dormir,

perdão pra descansar horas a fio,

sem ao menos sonhar

a leve palha de um pequeno sonho.


Quero o que antes da vida

foi o sono profundo das espécies,

a graça de um estado.

Semente.


Muito mais que raízes.



Adélia Prado


(in "Bagagem" São Paulo: Ed.Siciliano, 1993)



Casamento


Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.


Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.


É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como "este foi difícil"

"prateou no ar dando rabanadas"

e faz o gesto com a mão.


O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.


Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.



Adélia Prado 




Poema Começado no Fim - Adélia Prado


Poema Começado no Fim


Um corpo quer outro corpo.

Uma alma quer outra alma e seu corpo.

Este excesso de realidade me confunde.


Jonathan falando:

parece que estou num filme.

Se eu lhe dissesse você é estúpido

ele diria sou mesmo.

Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear

eu iria.


As casas baixas, as pessoas pobres,

e o sol da tarde,

imaginai o que era o sol da tarde

sobre a nossa fragilidade.


Vinha com Jonathan

pela rua mais torta da cidade.


O Caminho do Céu.


Adélia Prado


Pranto Para Comover Jonathan - Parâmetro - Adélia Prado


Pranto Para Comover Jonathan



Os diamantes são indestrutíveis?

Mais é meu amor.

O mar é imenso?

Meu amor é maior,

mais belo sem ornamentos

do que um campo de flores.


Mais triste do que a morte,

mais desesperançado

do que a onda batendo no rochedo,

mais tenaz que o rochedo.

Ama e nem sabe mais o que ama.



Adélia Prado



Parâmetro


Deus é mais belo que eu.

E não é jovem.

Isto sim, é consolo.



Adélia Prado


Dia - Objeto de Amar - Adélia Prado


Dia


As galinhas com susto abrem o bico

e param daquele jeito imóvel

- ia dizer imoral -

as barbelas e as cristas envermelhadas,

só as artérias palpitando no pescoço.


Uma mulher espantada com sexo:

mas gostando muito.


Adélia Prado



Objeto de Amar


De tal ordem é e tão precioso

o que devo dizer-lhes

que não posso guardá-lo

sem que me oprima a sensação de um roubo:

cu é lindo!


Fazei o que puderdes com esta dádiva.

Quanto a mim dou graças

pelo que agora sei

e, mais que perdôo, eu amo.



Adélia Prado


Poesia reunida - Adélia Prado


Poesia reunida


A formosura do teu rosto obriga-me

e não ouso em tua presença

ou à tua simples lembrança

recusar-me ao esmero de permanecer contemplável.


Quisera olhar fixamente a tua cara,

como fazem comigo soldados e choferes de ônibus.


Mas não tenho coragem,

olho só tua mão,

a unha polida olho, olho, olho e é quanto basta

pra alimentar fogo, mel e veneno deste amor incansável

que tudo rói e banha e torna apetecível:

cadeiras, desembocaduras de esgotos,

idéia de morte, gripe, vestido, sapatos,

aquela tarde de sábado,

esta que morre agora antes da mesa pacífica:

ovos cozidos, tomates,

fome dos ângulos duros de tua cara de estátua.


Recolho tamancos, flauta, molho de flores, resinas,

rispidez de teu lábio que suporto com dor,

e mais retábulos, faca, tudo serve e é estilete,

lâmina encostada em teu peito.

Fala.


Fala sem orgulho ou medo

que à força de pensar em mim sonhou comigo

e passou o dia esquisito,

o coração em sobressaltos à campainha da porta,

disposto à benignidade, ao ridículo, à doçura.

Fala.


Nem é preciso que amor seja a palavra.

"Penso em você" – me diz e estancarei os féretros,

tão grande é a minha paixão.



Adélia Prado