quarta-feira, 22 de julho de 2015

Poema Começado no Fim - Adélia Prado


Poema Começado no Fim


Um corpo quer outro corpo.

Uma alma quer outra alma e seu corpo.

Este excesso de realidade me confunde.


Jonathan falando:

parece que estou num filme.

Se eu lhe dissesse você é estúpido

ele diria sou mesmo.

Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear

eu iria.


As casas baixas, as pessoas pobres,

e o sol da tarde,

imaginai o que era o sol da tarde

sobre a nossa fragilidade.


Vinha com Jonathan

pela rua mais torta da cidade.


O Caminho do Céu.


Adélia Prado


Pranto Para Comover Jonathan - Parâmetro - Adélia Prado


Pranto Para Comover Jonathan



Os diamantes são indestrutíveis?

Mais é meu amor.

O mar é imenso?

Meu amor é maior,

mais belo sem ornamentos

do que um campo de flores.


Mais triste do que a morte,

mais desesperançado

do que a onda batendo no rochedo,

mais tenaz que o rochedo.

Ama e nem sabe mais o que ama.



Adélia Prado



Parâmetro


Deus é mais belo que eu.

E não é jovem.

Isto sim, é consolo.



Adélia Prado


Dia - Objeto de Amar - Adélia Prado


Dia


As galinhas com susto abrem o bico

e param daquele jeito imóvel

- ia dizer imoral -

as barbelas e as cristas envermelhadas,

só as artérias palpitando no pescoço.


Uma mulher espantada com sexo:

mas gostando muito.


Adélia Prado



Objeto de Amar


De tal ordem é e tão precioso

o que devo dizer-lhes

que não posso guardá-lo

sem que me oprima a sensação de um roubo:

cu é lindo!


Fazei o que puderdes com esta dádiva.

Quanto a mim dou graças

pelo que agora sei

e, mais que perdôo, eu amo.



Adélia Prado


Poesia reunida - Adélia Prado


Poesia reunida


A formosura do teu rosto obriga-me

e não ouso em tua presença

ou à tua simples lembrança

recusar-me ao esmero de permanecer contemplável.


Quisera olhar fixamente a tua cara,

como fazem comigo soldados e choferes de ônibus.


Mas não tenho coragem,

olho só tua mão,

a unha polida olho, olho, olho e é quanto basta

pra alimentar fogo, mel e veneno deste amor incansável

que tudo rói e banha e torna apetecível:

cadeiras, desembocaduras de esgotos,

idéia de morte, gripe, vestido, sapatos,

aquela tarde de sábado,

esta que morre agora antes da mesa pacífica:

ovos cozidos, tomates,

fome dos ângulos duros de tua cara de estátua.


Recolho tamancos, flauta, molho de flores, resinas,

rispidez de teu lábio que suporto com dor,

e mais retábulos, faca, tudo serve e é estilete,

lâmina encostada em teu peito.

Fala.


Fala sem orgulho ou medo

que à força de pensar em mim sonhou comigo

e passou o dia esquisito,

o coração em sobressaltos à campainha da porta,

disposto à benignidade, ao ridículo, à doçura.

Fala.


Nem é preciso que amor seja a palavra.

"Penso em você" – me diz e estancarei os féretros,

tão grande é a minha paixão.



Adélia Prado



Sedução - Adélia Prado


Sedução


A poesia me pega com sua roda dentada,

me força a escutar imóvel

o seu discurso esdrúxulo.


Me abraça detrás do muro, levanta

a saia pra eu ver, amorosa e doida.


Acontece a má coisa, eu lhe digo,

também sou filho de Deus,

me deixa desesperar.


Ela responde passando

a língua quente em meu pescoço,

fala pau pra me acalmar,

fala pedra, geometria,

se descuida e fica meiga,

aproveito pra me safar.


Eu corro ela corre mais,

eu grito ela grita mais,

sete demônios mais forte.


Me pega a ponta do pé

e vem até na cabeça,

fazendo sulcos profundos.


É de ferro a roda dentada dela.



Adélia Prado 


Ausência de poesia - Nem um verso em Dezembro - Adélia Prado


Ausência de poesia


Aquele que me fez me tirou da abastança,

Há quarenta dias me oprime do deserto. (...)

Ó Deus de Bilac, Abraão e Jacob,

Esta hora cruel não passa?

Me tira desta areia, ó Espírito,

Redime estas palavras do seu pó.



Adélia Prado


(Poesia Reunida, p.189.)



Nem um verso em Dezembro


Nem um verso em Dezembro,

Eu que para isso nasci e vim ao mundo. (...)


Adélia Prado


(Poesia Reunida, p.157.)



Cantiga dos pastores - Adélia Prado


Cantiga dos pastores


À meia noite no pasto,

guardando nossas vaquinhas,

um grande clarão no céu

guiou-nos a esta lapinha.


Achamos este Menino

entre Maria e José,

um menino tão formoso,

precisa dizer quem é?


Seu nome santo é Jesus,

Filho de Deus muito amado,

em sua caminha de cocho

dormia bem sossegado.


Adoramos o Menino

nascido em tanta pobreza

e lhe oferecemos presentes

de nossa pobre riqueza:


a nossa manta de pele,

o nosso gorro de lã,

nossa faquinha amolada,

o nosso chá de hortelã.


Os anjos cantavam hinos

cheios de vivas e améns.

A alegria era tão grande

e nós cantamos também:


Que noite bonita é esta

em que a vida fica mansa,

em que tudo vira festa

e o mundo inteiro descansa?


Esta é uma noite encantada,

nunca assim aconteceu,

os galos todos saudando:

O Menino Jesus nasceu!



Adélia Prado